Agressividade e Violência

AGRESSIVIDADE, VIOLÊNCIA E FOFOCA

Fabio Veronesi

Agressividade é uma palavra usada de muitas formas. A forma como vou trabalhar sobre o conceito de agressividade pode ser nova para alguns. Sua base vem das concepções da Psicologia Somática.

Agressividade é um fenômeno inerente à Vida. Se pensarmos na agressividade de nosso sistema imunológico, entenderemos o quanto agressividade está associada à proteção e manutenção da Vida. De uma célula à um organismo complexo, nas mais diversas formas e espécies que a Vida se apresenta, ela sempre se apresenta dotada de agressividade.

Agressividade pode ser comparada a outras forças da Natureza. Um rio que flui não acumula. Mesmo que chova demasiado, o rio enche, pode até transbordar, mas se permanece livre para correr, ele aumenta sua vazão, contribuindo para que a inundação não permaneça.

Por outro lado, rio represado acumula. Quando a represa arrebenta, há inundação repentina, catástrofe, exagero.

Assim pode-se compreender por analogia o que ocorre quando a expressão da agressividade flui, e o que ocorre quando ela é contida. Pequenos e grandes acúmulos de agressividade.

Violência é o que acontece quando a represa arrebenta. Violência é muita agressividade de uma só vez, uma enorme agressividade, uma agressão.

Brinco com os conceitos de agressão e “agressinha”. Agressinha é um pequeno acúmulo de agressividade que logo se expressa, evitando acúmulos maiores. Agressão é a expressão de grande agressividade contida que encontrou seu limite e teve que vazar toda de uma só vez. Agressão é sinônimo de violência. Agressinha não. Pequenas agressinhas que acontecem evitam grandes agressões que iriam acontecer.

Da vazão de expressão da agressividade depende se haverá ou não violência.

Assim, por essa ótica, violência é o oposto de agressividade, apesar de ter a mesma essência. Se a agressividade flui, ela não acumula, e não há necessidade de violência. Se a agressividade é contida, acumula, e rompe em violência.

Quando há agressividade, não há violência.

Para entender melhor essa idéia é preciso estender o conceito comum de agressividade. Agressividade não é só o que está associado à brutalidade. Por exemplo: Para conseguir me aproximar da pessoa que me interessou na festa e iniciar uma conversa, é preciso agressividade. Dar uma palestra, falar frente a um público, exige agressividade. Comer é um ato agressivo, basta observar um refeitório – pessoas dilacerando comida, partindo, quebrando, incorporando a si. Namorar mistura afetividade e agressividade. É preciso agressividade para superar nossos impasses, vencer os desafios que surgem em nosso cotidiano.

Ou seja, agressividade é bem vinda. Precisa fluir, expressar-se diretamente. Se não queremos ser violentos, é fundamental sermos agressivos, nos tornarmos amigos de nossa agressividade, entender suas razões e lhe dar vazão.

Há um capítulo à parte no estudo da contenção da agressividade, referente a falar dos incômodos que sentimos nas relações pessoais, comunicando isso diretamente às pessoas com que nos relacionamos. É preciso agressividade para romper o pacto de mediocridade – não falo certas coisas que acho sobre você, para não ouvir certas coisas que você acha de mim.

Medíocre significa buscar manter o médio, não radicalizar, manter o meio termo.

Somente termos inteiros conseguem comunicar incômodos efetivamente. Meios termos permitem que a pessoa escape ao entendimento do que tentamos lhe falar, pela metade que não ficou clara, não apareceu direta. Meios termos, indiretas, propõe algo entre meio dizer e meio ouvir, ou ainda melhor: dizer e não dizer, e ouvir e não ouvir.

A falta de agressividade para falar resulta em constante contenção dos incômodos não ditos. Acúmulo, acúmulo, acúmulo, até o cúmulo! Até não mais suportar e explodir em discussões, gritarias, agressões, violência verbal.

Repare como a imensa maioria das pessoas afirma que suas discussões “começam por besteira”, por motivos que não justificariam o que aconteceu. Tal coisa se explica porque, independente dos fatos que acabaram de acontecer justificarem ou não, a represa interna não suporta mais conter. Seja qual for o fato ele é a gota que transborda. O momento da discussão não está ligado só às coisas que acabaram de acontecer, mas as que vem acontecendo há algum tempo.

O pacto de mediocridade já se apresenta logo de cara, na forma como nos cumprimentamos ao nos encontrarmos: “Oi, tudo bem?”. Cuja resposta é quase sempre: “Tudo bem, e você?”. Que finalmente termina com um: “Tudo bem”. Impomos o pacto do “tudo bem” para início de conversa. Mesmo que não esteja tudo bem, dificilmente alguém quebra essa regra social, e sai dizendo: “Não! Não está tudo bem, e você?”

Outro exemplo clássico do pacto de mediocridade acontece quando uma pessoa pergunta se está bonita (bem vestida, aprontando-se para sair) e as pessoas respondem que ela está “bonitinha”. ”Bonitinha” é aquela que não está feia, mas não chega a estar bonita. Sinceramente não acham que a pessoa está bonita. Acham provavelmente que “podia ser melhor”. Mas não há agressividade suficiente para comunicar isso de forma clara.

É inata no humano a curiosidade pelo outro. Isso se constata ao observarmos a socialização das crianças. Percebemos também que é natural do ser humano comunicar os sentimentos que surgem com relação aos outros com que interagimos em grupo.

Crianças não só escancaradamente observam as pessoas que lhes chamam atenção, como espontaneamente comunicam o resultado de suas observações. Com a mesma naturalidade, seja positivo ou negativo, defeito ou qualidade, agrado ou desagrado. Geralmente de formas diretas formas diretas – falando, chorando, reclamando, se afastando, rompendo relações (“ficando de mal”) como consequência de um ato que não gostou que o outro fizesse, mostrando defeitos, apontando com o dedo, etc.

Essa espontaneidade é gradualmente reprimida no processo de criação. Como resultado, adultos represam e acumulam incômodos em relação aos outros nas associações que vivem cotidianamente. Mas, esse impulso inerente ao humano, não deixa de emanar. O ser humano não consegue deixar de observar o outro. Também não consegue deixar de emitir opiniões sobre o comportamento do outro que o afeta, suas atitudes, seu jeito de ser.

A saída para tal impasse é a fofoca. Há fofoca entre membros de uma mesma família, entre empregados de uma mesma empresa, alunos de uma mesma escola, vizinhos que moram numa mesma rua, ou qualquer outro grupo de interação social. E é a fofoca que ajuda a segurar a necessidade de dizer certas coisas que ficaram engasgadas diretamente para aquele que provocou tal sentimento. Para manter o pacto de mediocridade, falamos tais coisas para outras pessoas. Preferencialmente para pessoas que também conheçam aquela da qual falamos.

Assim, por falta de agressividade, se desperdiça um imenso potencial de conscientização e possibilidade de mudança pessoal e coletiva, de transformação de personalidades e culturas.

Copyleft

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Obra registrada na Creative Commons by Fabio Veronesi

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