Compulsão – pequeno tratado

Pequeno TRATADO sobre COMPULSÃO 

Fabio Veronesi 

Tratamento indicativo para compulsão: parar de “por para dentro” começando a “por para fora” 

Comunicar-te com as pessoas presentes no cotidiano, conhecidas e estranhas, fluir tuas opiniões, afirmá-las, ter posturas expostas sobre as coisas que acontecem, sobre a realidade que se apresenta, levantar dúvidas, propor caminhos, vivê-los na prática e no discurso que elabora.

Criar novidade, arte, dedicar-se a obra pessoal, ao que lhe dá sentido fazer, ser excelente por gostar do que faz.

Ser agressivo sem deixar de ser ético. Éticoagressividade. Falar incômodos para limpar as relações, romper com o que for preciso, transformar o que for preciso, valorizar, descartar, fortalecer.

Por para fora, retomar o pulsar – para fora, para dentro, fora, dentro, fora, dentro, … 

OU 

Barrar, trancar, conter, “por educação”, esse impulso natural do ser humano livre expressar-se. Disse Rimbaud, o poeta francês, “por educação perdi minha vida”.

E como dar conta da enorme tarefa de represar a expressão que pulsa?

Somente em princípio, na criação da criança, essa contenção é compulsória, imposta de fora para dentro. No adulto ela é autorrealizada, acontece de dentro para fora, naquilo que pode, mas não se expressa.

Uma eficaz estratégia de sucesso na empreita contenedora é simplesmente “por para dentro” quando houver excesso na precisão de “por para fora”.

Procurando definir o que estou chamando de “por para dentro”: comer, possuir, comprar, ouvir, expectar, telexpectar, comer, comer, comer, ouvir, ouvir, ouvir, fone de ouvido, expectar, expectar, expectar, show, tv, teatro, cinema, propaganda, ter, ter, ter, comprar, manter, possuir, comer, engolir, engolir, engolir, cerveja, refrigerante, sorvete, creme, acumular, acumular, acumular, gordura nos corpos humanos – estamos muito próximos de atingir o recorde histórico em que metade da população do planeta terá excesso de peso, obesidade mórbida, diabetes, (nos chamados países neoliberais “desenvolvidos”, ela já chega a 40%; nos países “em desenvolvimento” já ultrapassou os 30%) consumir, consumir, consumir o planeta em última instância.

Por para dentro” quando se ia “por para fora”. Ótima estratégia de não deixar sair. Melhor que uma simples rolha que tampa, abafa. “Por para dentro” troca por prazer o desprazer de negar a si mesmo. O troco dessa troca é que esse prazer se sente pouco, cada vez menos, como tudo em que nos viciamos – consumimos cada vez mais e sentimos cada vez menos. Assim, a troca acontece e não acontece ao mesmo tempo. Isso provoca o efeito de gerar uma emoção que poderia ser explicada assim: permaneço insatisfeito, mas não sei o motivo porque permaneço assim, já que acabei de consumir o que poderia me satisfazer. Um vazio que aparece quando se acaba de possuir

E sexo: põe para fora ou põe para dentro? 

Essa é questão fundamental para entendermos a nova cara da velha repressão sexual: sexo, dentro da metáfora que estamos construindo neste texto sobre “por para fora” e “por para dentro”, está em qual categoria?

Quebrou a referência. Sexo não é “ou”, é “e”.

Sexo “põe para dentro” e “põe para fora” – literal, emocional e metaforicamente.

Sexo é “por para fora”, ou seja, é expressão. Sexo é “por para dentro”, ou seja, é receber, saborear, possuir o outro por um momento, possuir sua atenção, seu querer, sua intenção.

O outro também nos possui por um momento.

Nessa dança de entra e sai, fora e dentro, possuímos e nos deixamos possuir, podemos possuir um ao outro e a posse em si perder o sentido e, com isso, ultrapassarmos limites no sentimento do amor que emerge do nosso ato sexual.

ou

Trocar DOAÇÃO por POSSE 

Insistimos em somente possuir. Não cedemos, não nos damos, não nos entregamos ao sentimento de nossas emoções emergentes porque “objetamos” as pessoas. Transformamos pessoas em objetos de consumo. As pessoas não são vistas como pessoas, como um todo que se estabelece a partir da união de um conjunto: idéias, crenças, atitudes, gestos, humor, expressões faciais, jeito peculiar de rir, chorar, falar, andar, tom de voz, formato do corpo, altura, textura e uma infinidade de fatores únicos. As pessoas são vistas como carne que se vende no açougue, fracionadas: são bunda, peitos, tórax, coxas, barriga, boca, cabelos ou qualquer outro “pedaço” que ancore o desejo de posse.

Essa “objetação” é oferecida pela moral liberal como rota de fuga para dificuldade de entrega ao ato sexual, resquício da forte repressão à livre expressão sexual das crianças no chamado processo de “criação” que as transforma em adultos. A partir da adolescência, se podeve fazer sexo. Por essa permissão imposta se disfarçam os efeitos da histórica repressão anterior. A moral neoliberal ou “neomoral” oferece o pornográfico como modelo de transformação do sexo em produto de consumo.

Com esses elementos antagônicos e paradoxais se explica o fenômeno do vício em sexo, ao qual todos (criados em sociedades neoliberais) estamos sujeitos em maior ou menor grau. Os efeitos da compulsão sexual aparecem tanto na quantidade quanto na ansiedade de nosso fazer sexual, ou seja, mesmo quem faz sexo esporadicamente, quando o faz, faz de forma compulsiva.

O que estamos chamando de “por para fora”, essa parte de doação no fazer sexual, está totalmente associada à entrega emocional. O interessante a se ressaltar é que há um mecanismo para sua contenção parecido com o que já foi dito sobre “por para dentro quando se ia por para fora” que nesse caso aparece assim: quando meu amor ia se direcionar para o outro, transformar-se em carinho que sai das mãos, admiração pelo outro expressa em nosso olhar, agradecimento pelo que o outro nos dá transformado em desejo de agradá-lo, … contenho o sentimento dessa onda emocional redirecionando minha atenção para mim mesmo, transformando o outro em objeto para mim, sentindo que o possuo, que ele é meu naquele momento, adquiro, ponho para dentro. Há um redirecionamento energético, uma inversão no sentido da intenção amorosa. Por isso o CORPOBJETO é tão valorizado na moral neoliberal: cirurgias plásticas, maquiagens, dietas, academias, bronzeamento, tamanho da bunda, tamanho dos peitos, tamanho dos bíceps, do tórax, do pênis, do cabelo, salão de beleza, concurso de miss, a mais bonita, revista, moda, celulite, depilação!

O que se cria é o seguinte equilíbrio: em nossa moral neoliberal, “sexo pode e deve se fazer bastante e, para tal, sentir-se pouco”.

Sentir pouco tem duas funções:

A primeira é manter autonomia sentimental que nos permita fazer sexo com outras pessoas. Esse sentimento de fundo implantado moral neoliberal, não é exclusivo de pessoas que estejam se relacionando sexualmente com duas ou mais pessoas, aquilo que atualmente se chama de “ficação”. Ele está presente também nos casados, comprometidos, namorados, companheiros, “namoridos” e “namorosas”, enfim, naqueles que estão optando por manter uma relação monogâmica. A ampla possibilidade de se fazer sexo em nossas sociedades neoliberais é uma realidade que age sobre o fazer sexual dos casais de opção monogâmica como um fantasma que rodeia, uma tentação que se apresenta constante numa sociedade que por um lado incentiva o consumo (com a desculpa de que precisamos ter economia sempre crescente) de tudo o que se pode consumir e por outro apresenta o sexo como produto, como pano de fundo de quase toda campanha publicitária que aparece na mídia.

A segunda função é que a insatisfação sentimental nos mantém insaciados. Permanecemos querendo mais mesmo tendo. Mais, mais e mais, sem perceber que não é isso que nos falta ou, em outras palavras, que ao consumir o outro nós também nos transformamos em produto.

Copyleft

creative commonsCópia livre desde que respeitada a autoria. Não permito alterações do conteúdo ou uso para derivar outras obras. Comercialização só com minha prévia autorização.

Obra registrada na Creative Commons by Fabio Veronesi

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