Foder, mijar, cagar

FODER, MIJAR, CAGAR

Fabio Veronesi

O preconceito moralista de se falar sobre como cada um defeca é paralelo ao preconceito moralista de se falar como cada um faz sexo. Esses assuntos são considerados extremamente particulares, problema de cada um.

Há uma visão antropológica muito interessante criada em um filme antigo que apresenta uma sociedade onde as pessoas comem em cubículos isolados, escondidas umas das outras e, por outro lado, cagam em estabelecimentos públicos, conversando.

Comparativamente, nossas sociedades permitem quando muito o ritual de mijarmos juntos. Falando nisso, o que as mulheres vão fazer juntas no banheiro? Essa questão intriga os homens. Para mim a resposta é compartilhar o gozo da urina, movimentar essa energia no sentido da relação, falar do lugar onde estão, das pessoas com quem estão, expectativas, fofocas.

Os homens fazem isso muito menos. Primeiro porque não assumem que vão urinar juntos, dificilmente um homem convida outro para ir banheiro. Depois, se acontece por acaso, tem o preconceito de se olhar nesse momento em que os dois, tres ou mais, estão segurando seus pintos e mijando. Nos banheiros públicos masculinos vem ocorrendo uma mudança gradual, acontecendo em cada banheiro que é reformado, de substituir os antigos “coxos” coletivos por peças de cerâmica individuais separadas por pedras de mármore ou divisórias de madeira que tem a exata função dos homens poderem mijar lado a lado sem ter a possibilidade de olhar o pênis um do outro.

Mijar é um gozo. Tanto que leva o nome equivalente ao gozo, ou seja: “mijar” se refere ao gozo e “urinar” se refere ao biológico, à ação de eliminar urina. O mesmo acontece com “cagar” e soltar fezes, defecar. Assim como com “foder”, “trepar, “meter” e “fazer sexo”. Ao elaborarmos um texto podemos usar os termos referentes ao biológico quando quisermos dar um tom mais técnicos e seco, ou podemos usar os termos referentes ao gozo quando quisermos temperar o tom. Essa possibilidade de uso desses termos mostra que eles não são sinônimos.

O orgasmo pode ser definido como um gozo intenso resultado de uma contenção que se liberou. O prazer se dá pelo fim de um desprazer. O mecanismo do orgasmo se vale de nossa possibilidade de acumular desprazer. Percebam a manifestação da Inteligência psicossomática – não conseguimos acumular prazer, o prazer é etéreo, acontece, se dá em um momento. Mas, retento, conseguimos acumular desprazer. A palavra retenção vem de “reto” – trecho final do intestino e o ânus ou, no caso, o cu. A necessidade de defecar e urinar pode ser contida. Cresce o incômodo. A urina e as fezes se acumulam. Os esfincteres se travam. Cresce a bexiga, enche o intestino. Quando liberamos os esfincteres ocorre o fim de um grande desprazer, ou seja, um grande prazer. Por isso são naturais os gemidos, arfares e expressões sonoras inteligíveis ocorrerem nesse momento.

Os mesmos elementos estão presentes na relação sexual. O que se acumula é um desprazer. Tanto que é essa sensação que se percebe quando não há orgasmo. O paradoxo no caso da relação sexual está em que esse desprazer se acumula com o prazer do toque, do carinho na pele, do encontro das mucosas – bocas e genitais. Um desprazer que se acumula tendo prazeres. Desprazer que se descarrega em prazer quando liberado. Mas, dessa vez não há esfincteres. O mecanismo que libera essa represa é psicossomático, biológico-emocional.

Bioenergéticamente falando, o quadril funciona equivalente à um capacitor elétrico porque tem a capacidade de acumular carga por um tempo e descarregá-la num instante. Um orgasmo de baixa potência pode se dar por uma falta de capacidade de descarregar ou por falta de capacidade de acumular.

A ejaculação precoce pode ser entendida como falta de capacidade de suportar o acúmulo de carga, ou seja, suportar o incômodo associado a esse acúmulo.

Problemas nas vias aéreas altas podem estar associadas ao não descarregamento completo da carga acumulada. Os genitais são nossas mucosas mais baixas. O que não se descarrega por baixo, busca outras vias de saída. As narinas são nossas mucosas mais altas. Rinites, espirros e até asma podem se seguir ao orgasmo de baixa potência por pouca descarga.

Tanto o acúmulo como a descarga da energia acumulada dependem da entrega emocional. Quanto maior for a qualidade do afeto mais carga se acumula, quanto maior for o vínculo mais se permite o descontrole da descarga. É nesse ponto que trabalha a repressão atual da sexualidade espontânea. Com isso ela recua seu ponto de ação. Ela não proíbe ou dificulta o ato como fazia no século passado. Pelo contrário, ela permite, incentiva, objetiva e banaliza. E assim tira sua força. A repressão do século passado era romântica apesar de tudo, ou seja, permitia, incentivava, exagerava os sentimentos.

Por fim, no contexto do que foi exposto, cabe comentar sobre o entendimento psicossomático acerca do masoquismo. Não se trata exatamente de ter prazer em apanhar, mas descarregar a carga acumulada pelo medo de apanhar.

Ficar no estado em que se pode ser castigado a qualquer momento vai acumulando desprazer. Quando finalmente se é castigado ocorre o fim desse acúmulo. A espera acaba porque aquilo que se esperava aconteceu. Há também o alívio de saber, por experiências anteriores, que depois da surra, não se apanha outra vez tão cedo, haverá um tempo de paz pois descarregou-se em violência a agressividade contida por aquele que bateu.

Interessante também perceber que há nessa contenção da agressividade descarregada de uma só vez em violência, o mesmo mecanismo de prazer que ocorre pelo fim de um período de acúmulo de desprazer (se forçar a ter paciência com uma situação que não se suporta, não falar incômodos que permanecem, acumular carência afetiva, etc), isso está associado ao sadismo e também ao que Lacan chamou de “gozo podre”.

A agressividade acumulada descarrega em violência de diversas formas, ou seja, não só fisicamente com socos e pontapés, mas também por discurso: gritos, ofensas, ameaças. Enquanto a pessoa discute, grita, aponta o dedo, ofende, ameaça, ela está “gozando”. Isso pode explicar o fato dessas situações recorrerem na vida de certas pessoas, sendo provocadas quase sempre por elas mesmas.

Interessante nesse trecho perceber que os nomes populares usados para designar dar e receber repreensões de um chefe, pai, mãe ou outra autoridade, são associados a outras formas de gozo que acontecem pelo fim de um desprazer, como dar ou levar um “esporro” ou uma “mijada”.

Essa discussão também se associa ao acúmulo do medo de errar, derrubar ou quebrar algo. Por isso dizemos “fiz cagada” ou “fiz merda” quando isso acontece. 

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Obra registrada na Creative Commons by Fabio Veronesi

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Comentários

  • Rodrigo  On março 17, 2011 at 4:30 pm

    Meus cumprimentos Fabio, achei seu texto sensacional.
    Não sei se a sua intenção era transparecer um tom humorístico em alguns trechos, mas isso deixou o texto ainda mais interessante. Gostei também da abordagem sobre o discutido, bem peculiar por sinal.

    Visitarei mais vezes.

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