Inconsciente Ideológico

Teoria do Inconsciente Ideológico

ou

se você não tem uma ideologia, uma ideologia tem você

Fabio Veronesi

Ideologiaaaa,

eu quero uma pra viver!

Ideologiaaaaa

pra viver… “

Cazuza

Há como não ter ideologia?

Há como não buscar coerência, entendimento próprio, base para as próprias atitudes?

Há como não ter um porquê no discurso que sai de nossa boca?

Há como não ter nossas próprias crenças?

O que move nossas discussões?

Por que discutimos com alguém?

Que “ponto de vista” nós defendemos?

Há como não ter os nossos próprios pontos de vista?

Quando miramos e admiramos o ambiente, há como não estabelecer base em algum lugar para enxergar a partir dele o que está em volta e envolto de/em nós?

Que lugares são esses?

Não há como não ter uma ideologia defendida/reproduzida em nossos discursos e atitudes.

O que pode haver é a inconsciência sobre essa defesa/reprodução.

Se não entramos em contato com outras ideologias, não temos como escolher entre as muitas possibilidades que existem. Permanecemos com a ideologia que havia no ambiente em que fomos criados, reproduzimos a ideologia dominante, a normalidade, o “politicamente correto”, a moda, a mídia e a moral vigente.

Achamos que o mundo é assim.

Se não paramos para pensar em ideologias, não somos conscientes da ideologia que carregamos.

Mas, independente de nossa consciência, o fato é que somos fruto de ideologias – no duplo sentido que a palavra “fruto” pode ter: construímos nossas concepções a partir delas e somos seus disseminadores, seus agentes reprodutores.

Não é tão simples enxergar ideologias.

Ideologias são conjuntos de idéias formando uma grande idéia que embasa uma lógica de ação.

Ideologias se misturam formando novos conjuntos de idéias, outras ideologias.

A mistura de ideologias que influenciaram a vida de cada um, forma um inédito conjunto de idéias. Pessoal, único. Assim, é coerente dizermos cada pessoa tem ideologia própria, resultado das ideologias presentes em sua vida, suas experiências, suas opções (ou falta de opções).

Todos nós temos nossa ideologia. Mesmo que estejamos inconscientes dela.

Amigos podem estar, por exemplo, falando de carros, imóveis, empregos, salários, carreiras, promoções, demissões. Avaliando quem “se deu bem” e quem fracassou. Satisfeitos ou decepcionados com suas posses, etc., etc., etc.

Há um balizador da conversa desses amigos. Algo que todos sabem e por isso ninguém mais precisa perder tempo em dizer, ficar lembrando. Coisas como, por exemplo: que é melhor ter mais dinheiro, um carro mais novo. Todos sabem o que significa ter um “bom emprego” – numa empresa grande, com grande salário. Todos entendem que ascensão significa crescer o patrimônio. Essas idéias e muitas outras formam um conjunto conhecida por todos eles. Idéias que influenciam suas vidas, suas decisões, seus conselhos, suas atitudes. Ao conversarem eles estão disseminando essas idéias entre si e para quem os escuta conversando. Crianças sempre em volta de adultos querendo aprender, se inserir nas conversas. Perguntam centenas de vezes os porquês das atitudes dos adultos. Em pouco tempo elas aprendem a lógica que embasa as conversas e estão reproduzindo ideologias sem saber. Em alguns anos estarão defendendo concepções sobre as coisas, discutindo com amigos, tomando decisões, dando conselhos, embasados em ideologias que talvez ainda não enxerguem.

Como se “enxerga” uma ideologia?

Enxergar” uma ideologia significa nomeá-la. Perceber como ela está em muitos discursos e atitudes que se apresentam a nós em nosso cotidiano.

Algumas ideologias são antagônicas. Por exemplo: ideologia do sacrifício X ideologia do prazer. Ou ideologia capitalista X ideologia anticonsumista.

Ideologia do sacrifício misturada à ideologia capitalista, pode resultar numa atitude de anos de dedicação ao trabalho e ao estudo em busca de alcançar o sucesso financeiro e profissional.

Ideologia do sacrifício misturada à ideologia anticonsumista, pode resultar numa vida de sacrifícios dedicada as causas ecológicas.

Já a ideologia do prazer misturada à ideologia capitalista, pode resultar na busca dos atalhos, as vias alternativas, ilegais, imorais para o sucesso que o sistema capitalista oferece.

Ideologia do prazer misturada à ideologia anticonsumista pode resultar na busca do prazer das coisas simples.

Esses exemplos são simplistas e restritivos. Servem somente para se ter uma idéia básica sobre como acontece de ideologias se misturarem formando novas ideologias, de modo que cada um acaba por ter sua própria ideologia, seu conjunto único de ideologias associadas dando coerência pessoal para as atitudes que toma.

Assim é que se entende o termo ideologia própria. É a minha ideologia. Se eu não a tenho, ela me tem.

A ideologia de cada um está associada ao seu sistema pessoal de crenças, ética e valores.

Isso não significa que estamos conscientes das ideologias que embasam nossas atitudes. Pelo contrário. O comum, o normal é a inconsciência sobre nossas ideologias. Até porque há ignorância sobre o que é ideologia, assim como sobre as ideologias existentes no meio social em que nos criamos.

Acontece que o contato com ideologias diferentes das que predominaram no ambiente em que fomos criados é capaz de promover um processo de transformação pessoal, ou seja, terapêutico.

Assim, não só há o que podemos chamar de inconsciente ideológico como também há o que podemos chamar de terapia ideológica ou ideoterapia., ou seja – técnica terapêutica baseada na conscientização sobre as ideologias, na ampliação das possibilidades e opções ideológicas, novas escolhas e transformação ideológica.

Mas, essa possibilidade não acontece somente com o contato teórico com outras ideologias e sim com a prática, a vivência em ambientes sociais impregnados de ideologias diferentes daquelas presentes em nossa criação.

Estudar ideologias diferentes provoca limitadas transformações pessoais. O que realmente revoluciona é a experiência, a experimentação.

Por exemplo podemos dizer sobre a ideologia que chamamos de “naturismo”. Pode-se saber teoricamente o que é. Mas, somente passando algumas horas nu em um ambiente com outras pessoas nuas é que se apreende seu sentido. Tal experiência é transformadora. Tem capacidade de quebrar preconceitos. Mexe com nossa timidez, autoestima e curiosidade, exatamente no sentido de entendê-las como naturais em nós. Os primeiros momentos são constrangedores para quem nunca teve essa experiência. Mas em pouco tempo nos adaptamos e percebemos que a nudez total, ao contrário do que se supõe quando estamos sempre de roupa, não sexualiza as relações. Depois que matamos a curiosidade, olhamos à vontade, o tempo passa e as pessoas não correm para se esconder em algum canto e voltarem vestidas (que é a reação padrão nas sociedades em que predomina a ideologia da vergonha do nu onde, entre várias idéias que formam esse conjunto está a de que “meu corpo nu ofende ao outro”). Depois da experiência de um fim de semana numa praia de nudismo, por exemplo. Ao retornarmos para cidade, para o dia a dia, no trabalho, nas ruas, nos espaços públicos, todas as pessoas cobertas por roupas. Será que olharemos as coisas com os mesmos olhos? Ou estaremos mudados, transformados, com percepção ampliada sobre o que é o fenômeno da roupa em nossas sociedades, imaginando como são os corpos por baixo das roupas, percebendo melhor o fato de que ao cobrir é que se provoca excitação. Será que ficaremos nus em casa, quando ninguém estiver olhando? Será que ultrapassaremos as limitações de nossos quartos e banheiros como únicos espaços possíveis de estar nu por algum tempo, e sairemos andando nus pela casa?

A ideologia naturista é uma das presentes no conjunto que define a ideologia pessoal de pessoas que já fazem isso cotidianamente em sua vida, quero dizer andar nuas pela sala, cozinha – ficarem nuas por algumas horas vivendo situações que não sejam as previstas pela ideologia de contenção da exposição corporal dos genitais (e mamas das mulheres): cagar, mijar, tomar banho, trocar de roupa e fazer sexo – literalmente meia dúzia de coisas que a sociedade entende como normais para a exposição dos genitais – e vive em seu cotidiano coisas como tomar café da manhã nu, ler jornal, falar ao telefone, escrever no computador, subir e descer escadas, atender à porta (?)… ops! Chegamos ao limite, podemos ser presos se atendermos a porta nus. É o limite externo. Não cabe colocá-lo como bode expiatório de nossa dificuldade de exposição corporal.

Há uma ideologia higienista que acompanha e dá base de coerência à ideologia de contenção da exposição dos genitais [acho que o nome pode ser esse mesmo, abreviado seria Contenção da Exposição de Genitais Nádegas & Mamas de las mamas].

A maior, mais forte, mais longa, incisiva, implacável, cotidianamente reafirmada contenção de exposição dos genitais ocorre assim que nascemos. Ela se chama frauda.

O “enfraudamento” das crianças é um fenômeno ainda pouco estudado pela Psicologia. Se percebermos o quanto a Psicologia está ligada à sexualidade, e a sexualidade aos genitais, precisaremos ampliar a lente de aumento sobre o processo de enfraudamento que ocorre a todos nós nascidos em sociedades de consumo liberal.

Já parou para pensar que, após meses de nudez total na vida intrauterina, cobrem nossos genitais com fraudas e permanecemos com eles enfraudados ao longo dos primeiros anos de nossa vida extrauterina.

Daí a “normalidade” em cobrir os genitais está bem estabelecida e pode seguir vida afora.

Mesmo quando o calor permite que o neném fique sem roupa, ele não pode ficar sem frauda. Ao longo dos meses a criança vai percebendo que todas as roupas se trocam, podem faltar, pode-se ficar sem calças às vezes, ou sem camisa. Mas as fraudas permanecem presentes. Elas são muito parecidas umas com as outras, não variam cores tamanhos, texturas como as outras roupas, são praticamente iguais.

A percepção humana acontece com a variação. Basta observar como percebemos o toque: Enquanto ele varia em deslocamento ou intensidade o percebemos. Mas, vamos percebendo cada vez menos e até podemos deixar de perceber, quando ocorre da mão parar em algum lugar do corpo e lá ficar, não fazer mais nada, não variar, ficar estática.

Também constatamos que a percepção ocorre na variação quando o motor da geladeira desliga e somente aí é que percebemos que ele estava ligado.

Para conseguirmos ter uma vaga idéia da insensibilização provocada em nossos genitais pelo processo de enfraudamento, seria necessário reviver um pouco da experiência. Que tal, por exemplo, passar o dia de hoje com fraudas? As regras são: Você não pode tirá-las a hora que quiser, somente quando elas estiverem lotadas de urina ou de fezes, e quem determina essa hora não é você. As fraudas retiradas precisam ser rapidamente substituídas por fraudas novas. Você não pode ficar sem fraudas, mesmo que esteja com roupas por cima delas. Se estiver sem roupas também não pode ficar sem fraudas. Você só pode tocar nos seus genitais por cima da frauda, com uma camada de algodão e uma película de plástico entre tua mão e os genitais, pois não há espaço e você não sabe o jeito de como fazer para enfiar as mãos por dentro da frauda.

Um dia apenas é o suficiente para se ter uma idéia do que significa a experiência do enfraudamento.

E que tal passar dois dias assim? Uma semana? Um mês? Um ano!

Uns dois anos…

Neném não pode ficar sem fraudas muito tempo, andando por aí, pela casa, na sala, na cozinha. Já imaginou se o neném defeca na cozinha?

A principal justificativa para o enfraudamento encontra base de coerência na ideologia higienista.

Essa “base de coerência” também está presente, por exemplo, na ideologia moralista. A Moral se perpetua e justifica porque, de certa forma, protege o ser que ama, expõe sua fragilidade e pode mais facilmente se magoar.

Voltando às fraudas, a ideologia higienista não existia até meados do séc. XIX. Antes da descoberta dos germes, micróbios, bactérias e de sua ligação com as doenças, não havia porquê lavar as mãos antes das refeições ou após ir ao banheiro, a não ser por questões estéticas ou odoríferas. O sabão é uma invenção do início do séc. XX.

A ideologia higienista justifica, dá base de coerência, ancora na realidade a necessidade de enfraudarmos nossas crianças. A partir da visão higienista, são óbvios os motivos pelos quais temos que fazer isso. Isso é certo. Isso é normal.

Perceba que não estou retirando uma vírgula dos motivos higienistas que justificam o enfraudamento. Mas, será que é somente por motivos higienistas que enfraudamos nossas crianças? Ou será que há outras questões profundamente relacionadas a esse fenômeno de nossas culturas? Questões como o enfraudamento ser um preparo da mãe (e do mundo) para a recusa que será feita às investidas sexuais da criança procurando relacionar-se com as pessoas?

Será que as crianças gostem de esfregar seus genitais nas pessoas próximas a si? Será que a criança bem pequena gosta de esfregar a “pipitanha” ou o “piupiuzinho” no braço da mamãe, no joelho do papai?

Pois, é … Sim!

Sim, a criança, assim como os cachorros domésticos fazem muitas vezes com seus donos, gostam de esfregar seus genitais na mãe, na avó, no pai e outras pessoas com quem estabeleçam relações.

Isso deixa pais, mães e avós atordoados, sem saber o que fazer diante da manifestação espontânea da criança.

Será que o enfraudamento ajuda ou facilita a diminuir esse malestar dos pais?

Os motivos higienistas são óbvios!

Os motivos psicológicos que nos levam a executar o enfraudamento cotidiano de nossos filhos, se escondem por trás desse “óbvio”.

Me parece que quase sempre é assim, os motivos psicológicos se escondem por trás das justificativas dos motivos óbvios. Se nos perguntam por quê fazemos aquilo, apresentamos os motivos óbvios.

Psicossomanálise é a arte de olhar além do óbvio, ou seja, naquilo que as atitudes representam, em sua função. Crianças nos ensinam muito sobre isso. Elas se comunicam assim, de forma mais representativa do que óbvia. Elas ainda estão sendo inseridas no universo dos signos e significados da linguagem, por isso podem nos ensinar muito sobre signos e significados fora da linguagem, fora do óbvio compartilhado por quem se expressa o tempo inteiro com palavras.

Mas, para aprendermos com as crianças sobre o que há além do óbvio, precisamos observá-las humildemente, como aprendizes de algo que já soubemos fazer muito bem um dia, mas passamos a ignorar quando adultos. Falta humildade aos adultos diante das crianças, por isso a grande maioria das pessoas convive com crianças, mas não entendem o que elas comunicam com suas atitudes, com suas obras.

O que digo está, por exemplo, naquilo que todos que tem filhos aprendem a entender – quando a criança começa a chorar e reclamar insistentemente, o motivo para isso pode não ter nada a ver com o que está acontecendo a sua volta, mas sim porque ela está com sono mas não verbaliza “estou com sono, preciso dormir”. Ela mostra que precisa dormir reclamando de outras coisas. Os adultos experientes, os avos e avós, é que dizem: “isso é sono!”. Invariavelmente, quando a criança está chorando muito porque está com sono, assim que os pais dizem que está na hora de dormir, ela chora mais ainda. Se ficarmos restritos à ótica do óbvio, entenderemos que a criança não quer dormir, pois passou a chorar mais depois que soube que ia dormir. Qualquer pai ou mãe com certa experiência consegue enxergar além do óbvio e entender a função daquele ato, o que ele representa, e segue em frente botando seu filho para dormir. Recebe a confirmação de que sua leitura além do óbvio estava precisa quando a criança que chorava dorme com facilidade e mais ainda quando percebe que ela acorda disposta.

Num outro exemplo: Toda criança espalha seus brinquedos e outros pertences pela casa. Além de obviamente lhe chamar de bagunceira, catar suas coisas, organizar em lugares destinados para guardá-las, é preciso entender o simbólico de tal atitude. A criança está espalhando a si mesma, querendo ocupar espaços, estar presente, ser vista, chamar a atenção.

O que faria mais efeito para provocar mudança de comportamento numa criança bagunceira demais: dar broncas mais severas ou dar-lhe mais atenção em momentos diferentes daqueles em que se é obrigado a dar atenção para os filhos pois é preciso organizar a bagunça que eles fazem, falar com eles sobre isso, tentar fazer com que eles mesmos se responsabilizem pela organização de suas coisas?

Eu aposto no segundo.

Aumentar as broncas pode surtir certo efeito imediato, mas a longo prazo não dá resultado e muitas vezes piora a situação ou a estabiliza. A criança faz e os pais dão bronca, uma coisa compensa a outra, a criança faz de novo, os pais dão outra bronca, parecida com a anterior, mesmo tom, mesma ladainha…

O Corpo continua a expressar-se dessa forma mais representativa e menos óbvia, por toda nossa vida. O Corpo é como a criança que continua a não querer entender o que é óbvio para coerência racional. O Corpo simboliza, inclusive com suas patologias, nosso universo psicológico escondido além do que está exposto como óbvio. O Corpo é um constante ato falho.

Aí está uma das bases metodológicas das psicoterapias somáticas: desenvolver a capacidade de leitura desse simbolismo do corpo e suas manifestações. Conseguir enxergar além do óbvio apresentado pelas palavras.

Todas essas reflexões surgem da percepção das ideologias, no caso: ideologia higienista, repressão sexual, naturismo.

Interessante para a discussão que este texto se propõe, é captar as ideologias associadas aos hábitos cotidianos, ao que fazemos automaticamente, produzimos e reproduzimos em ato.

Um outro bom exemplo de ideologias envolvidas em questões cotidianas é:

Ideologia que acha o ser humano essencialmente bom X Ideologia que acha o ser humano essencialmente mau.

Ideologia que entende que o ser humano precisa ser policiado, caso contrário irá cometer atrocidades X Ideologia que entende que o ser humano não policiado tende a se auto-organizar, autogovernar, autogerir.

Ideologia que entende que o ser humano precisa ser controlado por uma força maior, externa, heterorreguladora X Ideologia que entende que o ser humano deixado livre, em ambiente de liberdade, tende a desenvolver ética pautada na solidariedade e a capacidade de se autorregular a partir de forças internas, do indivíduo, dos pequenos grupos.

Ideologia da Guerra X Ideologia da Paz

Ideologia da Paz X Ideologia de Submissão

Nessa linha, um ensaio que acredito ser interessante é buscar estremecer a força da Ideologia Cristã em nosso cotidiano. Não é preciso ir a igrejas, ser católico, protestante ou praticante de qualquer religião cristianista, para ter sido influenciado pela ideologia cristã. Basta ter nascido em qualquer uma das chamadas “sociedades ocidentais” (européias ou pela Europa colonizadas). Todos nós estamos impregnados de ideologia cristã, tendo ou não ido a igrejas.

A ideologia cristã é primairmã da ideologia do sacrifício. A idéia de submissão, aceitação, dar a outra face.

Perceba que não estou falando que Cristo pregou tais coisas, mas aquilo que fizeram daquilo que Cristo fez. Ou seja, por que o maior símbolo do cristianismo é a cruz? Por que de tudo o que Cristo viveu, eles escolheram o momento de seu maior sacrifício? Por que não colocam em cima do altar uma cena de Jesus expulsando os mercadores do templo? Por que não louvam uma cena de Jesus falando entusiasmado para multidões? Por que não enaltecem o Cristo revolucionário, o líder, o estrategista?

Por que Jesus não tem mulher? Será que um homem com 33 anos já não teve pelo menos uma esposa ou namorada? Por que não aparece em lugar nenhum uma cena de Jesus tendo prazer? Já imaginou: Jesus gozando!?

Acho que deve ser até heresia falar: Jesus gozando!!!

E por que não se reproduz essa idéia? Será que Jesus não gozou?

Claro que sim.

Gozou chupando as tetas de Maria, sua mãe.

Igual a todos nós. Gozamos chupando as tetas de nossas mães. Foi nosso primeiro gozo. Tão bom, tão bom, que passamos a vida inteira tentando vivê-lo novamente, o que instala em cada um de nós aquela falta básica, sempre presente, ou melhor, sempre ausente, pois se trata de falta, do que não há, o oco do buraco (que eu tento preencher com namoradaos, com empregos, promoções, compras ou simplesmente abrindo a porta da geladeira de madrugada em busca daquela comida mágica que finalmente vai me satisfazer, mas nada do que há nada na geladeira é capaz de me satisfazer completamente.

Se não foi com mulheres que Jesus gozou, então foi com homens. E por que ninguém divulga a homossexualidade de Jesus?

Falando nisso, homossexualidade é ou não é pecado, dentro da ideologia cristã?

A Ideologia Cristã é primairmã da ideologia à qual damos o nome de Moral.

Por que será que há tantos homossexuais ainda “dentro do armário”? Será que é fácil ser homossexual em nossas sociedades patriarcais? Ou os homossexuais ainda são reprimidos em sua expressão?

E o lado homossexual de cada um de nós, é aceito ou reprimido nessa sociedade?

Será que a ideologia cristã tem muito ou pouco a ver com isso?

Filho de mãe virgem!?!?

Como assim? A mãe não deu nem para o pai? A gente não quer que ninguém coma a mãe da gente. Mas, nem o pai?

Já que o tabu do incesto não deixou que nós comessemos nossas mães, (apesar que querermos muito) não queremos que ninguém mais coma! Fantasiamos uma mãe só nossa, que só tenha olhos para nós. Acreditamos que essa mãe é casta, porque se ela não quis dar para mim é porque não dá para ninguém, e não porque ela não quer dar para mim.

Daí descobrimos que o pai comeu a mãe! Pode nem estar mais comendo, mas comeu um dia. Prova disso somos nós mesmos, a nossa existência. Esse é um choque de realidade – minha mãe dá, mas não dá para mim.

Já parou para pensar no simbolismo de penetrar a mãe?

Significa retornar para dentro dela. Associado à experiência uterina e tudo o que há de nirvânico em aconchegar-se na mãe – utero, colo, aleitamento, … tão bom que as crianças pequenas são agarradas à saia da mãe, como se quisessem entrar novamente por onde saíram.

Será que esse tipo de abordagem não interessa à Psicologia? Quero dizer estudar, por exemplo, os fenômenos psicológicos associados à idéia de comer a mãe. Mas, tais temas são discutidos nas faculdades de Psicologia? Não! penetrar a mãe ainda é proibido. Nem pensar! Quanto mais teorizar algo sobre.

Quanto será que a Ideologia Cristã, com sua mãe santa, sagrada, e sem gozo, tem algo a ver com esse atraso da Ciência?

Sabemos ver muito bem o quanto no passado a Igreja emperrou a Ciência. Mas, e hoje? Será que acabou mesmo a Inquisição. Será que nós, cientistas, já podemos afirmar que a Terra é redonda? Ou estamos permeados de morais cristãs?

Xingar a mãe é chamar para briga! Xingar de prostituta, então, é questão de honra. A mãe, não!

A puta que o pariu!

O que é a puta que pariu?!

É chamar para a realidade aqui e agora! Tua mãe não dá para ti, mas dá para outros. Cai na real. Ela não é casta porra nenhuma. Inclusive, porra é o que ela recebeu do teu pai. A tua própria existência é prova disso. Seu filho da puta!

Como fica a cabeça de Jesus ao descobrir que a mãe não deu nem para o pai?

Apesar de ser ruim descobrir que a mãe não é casta, há algo de bom nisso, que é a esperança: “se minha mãe deu para alguém, ela pode dar para mim, afinal ela não é casta”.

Paralelo à esperança corre a realidade: “quer dizer que minha mãe podia ter me dado, mas não quis!”. E “ela deu para outro o que recusou a mim!”

Essas linhas de pensamento, deduções, descobertas não são questões claras à Consciência. São fenômenos que ocorrem no campo da Inconsciência. Coisas que não dizemos para nossos colegas, nem para nossos professores, parentes, …, para ninguém! Nem para nós mesmos. Tão inconsciente que Freud o chamou de “recalcado” – o porão da Inconsciência.

O universo da Inconsciência.

Muita coisa ocorre nele sem que tenhamos consciência disso.

Porém, ao contrário do uso comum da palavra, a Inconsciência não está relacionada a falta de censo. Há é o que chamamos de “distração”. Mas, a distração é da Consciência e não da Inconsciência. Pelo contrário, a Inconsciência se manifesta naquilo que chamamos de distração. Ela atua quando a Consciência recua.

Bem, voltando para especulações sobre comer a mãe, tabu do incesto e ideologia cristã, retornamos para figura do Cristo que eles querem nos vender, com mãe virgem, que não deu nem para o pai.

Esse Cristo não tem esperança nem concorrência.

O ingrediente mais neurotizante dessa sopa é que a mãe não deu para o pai, mas deu para Deus!

Que concorrência, hein?! Mais um ótimo motivo para desistir…

E lá vamos nós desistindo de nossa luta por uma vida espontânea, plena, sexualmente ativa, …

Porém, não há como acreditar que um ser apático e conformado tenha conseguido exercer tamanha influência social no meio em que viveu 33 anos, a ponto dessa influência ter chegado a nós 2010 anos depois.

Vamos ser bons detetives.

“Não adianta olhar pro céu

com muita fé e pouca luta.

Levanta aí, que você tem muito protesto pra fazer

e você pode, você deve, pode crer.

Não adianta olhar pro chão,

virar a cara pra não ver.

Se liga aí, que te botaram numa Cruz

e só porque Jesus morreu

não quer dizer que você tenha que morrer!

Até quando você vai levando?

Porrada, porrada! Porrada, porrada!

Até quando você vai levando?”

Gabriel – O Pensador

Interessa analisar a distância entre o ser humano Jesus e o mito Jesus, ícone da ideologia cristã, para medir a distância entre o que somos e o ideal de ser que a ideologia cristã implanta em nossos achares.

Interessa saber o quanto isso está relacionado à repressão da sexualidade que continuamos a sofrer cotidianamente em nossas sociedades patriarcais.

Interessa saber o quanto isso está relacionado à guerra, que ainda é um fenômeno existente em nossas sociedades, mesmo nas que estão oficialmente em paz.

Poderiam ser muitos ainda os exemplos de ideologias dominantes em nossas sociedades e de sua influência naquilo que nos é inconsciente. Mas, esses poucos apresentados já são suficientes para passar a idéia central de que, enquanto humanos, não há como não sermos frutos de ideologias, mesmo que estejamos inconscientes das que carregamos e reproduzimos.

A radicalidade com que abordei alguns temas tem a função de estremecer a apatia da unanimidade de opinião que a ampla disseminação das ideologias dominantes provoca. Além de algo que me é inconsciente no momento, relacionado à forma exagerada de me expressar em alguns pontos. Em dado momento derivo deveras do tema central e estico incursões tentando criar ambientes que choquem as ideologias normopatas. Espero que esse exagero não seja prejudicial ao entendimento da idéia de inconsciente ideológico, ponto fundante de novas técnicas terapêuticas.

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Obra registrada na Creative Commons by Fabio Veronesi

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