Repressão Sexual no sec. XXI

Fabio Veronesi

A neurose se alimenta energeticamente do desvio da energia da libido, consequente do bloqueio à livre sexualidade e expressividade em geral.

Cabe, diante da percepção do fato, começar a questionar a quem interessa a constante, histórica e cotidiana repressão que oferecemos à livre expressão da sexualidade das crianças que criamos para transformarem-se em adultos auto-contidos, com sérios problemas sexuais, pior ainda, com sérias dificuldades em discutir abertamente suas dúvidas. É preciso pensar sem preconceitos e moralismos, o que nossa sociedade ganha e perde com isso. Ou melhor, quem ganha e quem perde com isso. Segundo Reich, seres humanos que pudessem viver livre e satisfatoriamente sua sexualidade dificilmente se submeteriam a qualquer tipo de regime autoritário. Dessa forma percebemos que a repressão sexual se encontra a serviço da manutenção das instituições de poder e não da saúde física e mental das populações a ela submetidas. É famosa a frase de Reich “Se a fome trás a revolta, o recalcamento sexual trás a submissão”. Reich utiliza muitas vezes em sua obra o termo “polícia de costumes”. É impressionante constatar como ela exerce uma influência mais próxima do que a polícia oficial, quando se trata de controle direto sobre nosso comportamento cotidiano.

Foi constante a luta de Reich contra o forte moralismo de sua época. Ainda como estudante de Medicina, na Universidade de Viena, incomoda os professores ao criar um grupo de estudos que consegue modificar a absurda visão da disciplina de Anatomia, que entendia o órgão reprodutor feminino como “um órgão masculino às avessas”.

Em 1931, como ativo membro do Partido Comunista, Reich funda a Associação alemã para uma política sexual proletária ou SEXPOL, que trabalhava com o proletariado sobre os entrelaçamentos entre sexo e política. Esse movimento cresceu rapidamente dentro do Partido, chegando a contar com 40 mil associados, atraindo principalmente os jovens comunistas. Reich defendia que a revolução política tinha que ser acompanhada de uma revolução sexual dos costumes. Em seu livro A Revolução Sexual, Reich mostra um relato histórico sobre como no momento pós-revolução russa, foi fundamental a quebra dos velhos dogmas morais para a formação das comunas, chegando a ser decretada a morte da família patriarcal e seu absurdo moralismo. Posteriormente, na segunda metade do livro, Reich tece sérias críticas aos caminhos da revolução russa com a ascensão do Stalinismo. Ele mostra como o modelo da família patriarcal estava sendo reimplantado por Stálin para permitir a tomada de poder por um regime autoritário. A radicalidade com que Reich luta contra o moralismo, mesmo que esteja travestido de “comunismo”, e o forte crescimento da influência da SEXPOL entre os membros mais jovens do partido, passou a incomodar seus dirigentes mais ortodoxos. Inicia-se uma campanha de difamação de Reich e suas idéias, patrocinada pelo alto escalão do Partido Comunista, que culmina na sua saída em 1934.

A repressão da vida amorosa infanto-juvenil provou, graças às pesquisas da economia sexual e individual, ser o mecanismo básico da criação de indivíduos submissos e escravos econômicos. Portanto, não se trata mais de apresentar uma carteira de filiação partidária branca, amarela, preta ou vermelha para provar essa, aquela ou qualquer outra ideologia. Trata-se, inequivocadamente sempre sem qualquer possibilidade de mistificação social, de se afirmar integralmente, de ajudar e assegurar, as manifestações livres e sadias da vida dos recém-nascidos, das crianças, dos adolescentes, das mulheres e dos homens; ou de se reprimi-las ou aniquila-las, seja com que ideologia ou pretexto, seja no interesse deste ou daquele Governo, “proletário” ou “capitalista”, seja ainda em nome desta ou daquela religião, judaica, cristã ou budista. Isso vale em qualquer lugar e enquanto houver vida, se é que se quer acabar de uma vez por todas com o embuste organizado das massas humanas trabalhadoras; se é que se quer demonstrar pela ação que os ideais democráticos o são a sério.” (trecho do prefácio da 3ª edição, 1945, do livro A Revolução Sexual)

Foi também por sua determinação em colocar a Ciência acima dos moralismos que Reich se uniu ao grupo de trabalho do professor Sigmund Freud que andava fazendo, no início do séc. XX, uma verdadeira revolução de costumes com idéias como a importância da libido na formação psíquica, atração entre filhos e mães, etc. Reich dedicou mais de uma década de sua vida ao estudo, desenvolvimento e clínica da Psicanálise, antes de romper com Freud exatamente por entender que ele se tornara reacionário diante das teorias que surgiram com as descobertas empíricas de Reich em sua prática psicanalítica, que significaram revoluções ainda mais radicais contra os dogmas moralistas.

Quando afirmou que “a toda neurose acompanha uma disfunção sexual”, Reich encontrou forte críticas dos outros médicos psicanalistas que diziam atender a muitos casos de pessoas neuróticas sem nenhum tipo de disfunção sexual. Reich esclarece a questão criando o conceito de potência orgástica, para trazer o entendimento que existem níveis de disfunção sexual. Antes de Reich somente eram consideradas disfunções sexuais: a impotência, o anorgasmo e a frigidez. Com ele, passamos a entender que existem orgasmos que não são plenos, cuja energia é redirecionada para neurose como válvula de escape à tensão libidinal não descarregada.

A fonte energética de nosso querer é a libido, não só quando estamos fazendo sexo, mas em toda e qualquer situação cotidiana. Libido é sinônimo de ânimo, fogo, vontade de viver. É ponto fundamental para um processo terapêutico de base reichiana tentar recuperar a expressão da sexualidade, bloqueada que foi em nossa formação, pela repressão social à sua livre manifestação. Porém, há diferentes possibilidades para interpretação do que seja livre manifestação da sexualidade.

Reich toda vida travou luta veemente contra o moralismo de sua época. O amplo entendimento da obra de Reich trás essa necessidade – buscar uma cultura que entenda o sexo como algo positivo, uma sociedade que seja profilática e não geradora de neuroses.

Esse é o ponto central em que queria chegar com a explanação anterior: o contato com a obra de Wilhelm Reich nos desperta claramente a necessidade de combater a repressão sexual do moralismo de nossa época. Mas, o que significa ter uma postura e um discurso anti-moralista nos dias de hoje? A pergunta principal é: qual a diferença entre a repressão sexual da moral do início do século passado e a deste início de século? Qual a cara nova da antiga repressão sexual? Será que o discurso anti-moralista do século passado não passou a ser exatamente o discurso moralista deste século?

A ideologia neoliberal utiliza um interessante sistema de defesa para se perpetuar e se disseminar pelo mundo – ela “fagocita” os movimentos sociais contrários ou diferentes, absorve, permite, literalmente libera e depois banaliza transformando em mercadoria. Permite, corrompe e compra. Foi assim com a revolução hyppie, com a revolução feminista, com a revolução sexual, com o movimento sindical, com o movimento estudantil, com o movimento punk e com a contra-cultura em geral.

O maior ícone da repressão sexual dos dias de hoje são as revistas pornográficas expostas em bancas de revista, a sessão de vídeos pornográficos das videolocadoras, as propagandas de casas de prostituição, os tele-sexo, etc.

Com Reich entendemos que reprimir sexualidade é reprimir a capacidade de envolvimento e entrega amorosa durante o ato sexual. A questão fundamental, então, nasce da pergunta: de que forma é reprimida a capacidade de envolvimento e entrega emocional?

Cabe entender que a resposta trás uma perspectiva histórica embutida. Ou seja, essa forma se modificou significativamente da época de Reich – primeira metade do séc.XX – bem como da época de Roberto Freire – segunda metade do séc. XX – com relação à forma como se apresenta hoje – início do séc. XXI.

De forma inédita, historicamente falando, a repressão sexual de hoje está travestida de liberalidade. A moral do sistema capitalista neoliberal cria uma armadilha completamente diferente e historicamente inédita para a entrega amorosa. A maior possibilidade de nos relacionar sexualmente com muitas pessoas que a moral neoliberal oferece, dificulta estar totalmente entregue a uma só. Exatamente por existir a possibilidade de manter-se relações sexuais com muitas pessoas diferentes, pelo fato de isso ser normal em nossa sociedade capitalista neoliberal, é que se cria a dificuldade de profunda entrega amorosa durante o ato sexual. Tal dificuldade é maquiada com fetiches e fantasias sexuais, também normais, liberadas e incentivadas nas sociedades neoliberais. A mais atual forma de repressão sexual consiste em fazer com que enxerguemos os corpos como mercadorias em uma sociedade que incentiva o consumo exagerado de tudo.

Além disso, é fundamental perceber que a livre expressão sexual das crianças nascidas no séc. XXI continua a ser reprimida. Talvez de forma menos violenta, mais pedagógica, mais conversada, etc., etc., etc, … mas reprimida sim! Como bem aponta Ângelo Gaiarsa (um reichiano de referência nacional) num trecho de seu livro A família de que se fala e a família de que se sofre: “brincar de guerra pode, mas de amor não!” Referindo-se ao fato facilmente constatável que em nossa sociedade – seja em lugares públicos ou dentro dos lares, nas praças, escolas ou festas de família, onde muitas crianças estejam reunidas, interagindo, brincando – nenhum adulto acha estranho ou reprime crianças que estejam brincando de polícia e ladrão com armas, fugas, perseguições, brigas e mortes. Mas, vá lá algum grupo de crianças brincar de se tocar, explorar seus corpos, se abraçarem, se esfregarem, tirar suas roupinhas, etc. frente a adultos – o caos está estabelecido, rapidamente pais e responsáveis dão um jeito de acabar com aquela brincadeira, seja de forma sutil ou violenta.

Agora, a diferença histórica do moralismo do séc. XXI é que a criança, depois que cresce sendo reprimida em sua espontaneidade sexual, encontra uma sociedade de adultos onde o sexo é permitido, incentivado e vendido como mercadoria que se consome. Esse jogo trás um novo paradigma no estudo dos resultados da repressão sexual da sociedade sobre os indivíduos. Vivemos numa sociedade em que todos, por frustração ou compulsão, pensam em sexo o tempo inteiro. O apelo sexual está na mídia, nas roupas, nas danças da moda, nas conversas, etc. Mas, apesar disso, poucos casais tem conseguido manter relações sexuais saudáveis, com entrega amorosa profunda, com encontro de almas.

Reich mostra como o orgasmo pleno é um dos principais e mais poderosos mecanismos naturais que o organismo tem para se desencouraçar completamente. Para ele, o orgasmo pleno só acontece com a entrega emocional plena, com a plena capacidade de amar. Dificulta a entrega emocional, a existência de jogos e insinceridades entre quem se relaciona. Estes, muitas vezes, acontecem porque as pessoas querem manter uma constante abertura para outras relações, atraídas pelas muitas possibilidades de um meio social com “grande oferta”.

O erro dos dogmas moralistas do início do século passado, contra os quais a geração de Reich lutou, era entender a fidelidade obrigatória como uma forma de se conquistar uma relação de maior entrega, sem perceber que a fidelidade é, ao contrário, conseqüência natural de uma relação de maior entrega. A fidelidade obrigatória moralista acaba por não conquistar um estado de maior entrega amorosa, mas uma relação de amor livre tende a conquistar um estado de fidelidade natural, biológica, que acontece sem imposição racional.

O erro dos anti-moralistas da segunda metade do século passado, dos quais Roberto Freire faz parte, foi também criar dogmas sobre o que seja uma “relação libertária”, fachada que muitas vezes esconde grandes confusões emocionais que também dificultam, só que de forma diferente, a verdadeira entrega ao sentimento de amor.

A chave para entender essa questão é perceber que há uma base subjetiva coerente que justifica a perpetuação dos moralismos relacionados à fidelidade. Supõe-se que a fidelidade obrigatória nos afasta da possibilidade sempre presente de nos machucar emocionalmente quando nos entregamos plenamente ao Amor. Ela dá garantias ao nosso ser frágil – aquele que sente amor com doçura, abertamente, em gestos e discursos – de que ele pode manifestar-se porque o campo está seguro, porque o outro não vai embora, porque o outro nos é exclusivo. Por mais que o modelo de fidelidade obrigatória tenha demonstrado através da história que ele não consegue cumprir na prática seus objetivos ideais, ele se perpetua porque as pessoas querem a fantasia de poder decretar a fidelidade do outro. A análise dessa base de coerência emocional que ajuda a perpetuar os códigos moralistas é importante e necessária principalmente para quem deseja ultrapassar a restrição imposta pelo moralismo. Caso contrário, corre-se o risco de viver relações com muitos jogos de poder e grande grau de confusão emocional, o que acaba justificando a existência do moralismo para normatizar o certo e o errado na conduta dos casais.

Qualquer tentativa de quebra com as regras moralistas ortodoxas, precisa estrategicamente preservar o senso ético que, bem ou mal, embasa a perpetuação histórica daquele código moral. É preciso um novo conjunto de regras. A liberdade não está na ausência de regras, mas na capacidade de ultrapassar as regras gerais pré-estabelecidas – aquelas que estavam prontas mesmo antes de nascermos – e estabelecermos um novo conjunto de regras próprio, único e autêntico.

As regras gerais históricas são, ao mesmo tempo, modificáveis pela influência de comportamentos atuais, pela força do diferente, das iniciativas de formar novas relações em velhas sociedades.

Elaborar um novo conjunto de regras que faça o papel de proteger esse ser frágil e ao mesmo tempo poderoso, aquele que manifesta abertamente seu amor, é uma questão de sobrevivência da iniciativa das pessoas que buscam uma relação mais livre, moralmente independente. Caso contrário haverá dor e confusão superior a das relações moralistas. As novas regras surgem do consenso entre as pessoas que se relacionam, da discussão aberta, da expressão sincera de seus desejos, dúvidas e medos sobre esse mergulho no pleno sentimento do amor.

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Obra registrada na Creative Commons by Fabio Veronesi

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Comentários

  • Soares Vieira Ilma  On novembro 18, 2016 at 10:46 am

    É exatamente a repressão sexual que a sociedade está sofrendo. Este texto é completo. gostei muito de ler.

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